A educação sem partido sempre foi maior

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Este TL abre este espaço para transcrever matéria da Tribuna do Norte em 2013. Porque Aluízio Alves foi uma governador que enxergou além de seu tempo. Nunca foi comunista, mas enxergou a excelência do grande método de alfabetização. 

Das 380 palavras usadas pelos moradores do município de Angicos – localizado a 194 km de Natal – em 1963, FELICIDADE não foi identificada pelo grupo de educadores que implantaram na época o método de alfabetização “40 Horas de Angicos”, pensado e implementado pelo educador Paulo Freire. Nas palavras usadas no dia a dia das 300 pessoas que se matricularam na primeira turma da experiência, DEUS, PROMESSA, ESMOLA, CHUVA, BRANCO, PRETO, TRISTE, ALVOROÇO, MEDO, CORAGEM, CONFORMAÇÃO e INVERNO eram algumas das que se destacavam. Esse universo restrito de formação ortográfica (assim como a falta de outras, como FELICIDADE) podem construir, ainda hoje – com uma distância de exatos 50 anos – o cenário social, cultural e religioso do grupo que conseguiu decodificar, após as 40 horas de estudo, muitas das palavras que verbalizava no cotidiano.

Pensado e estruturado pelo educador pernambucano Paulo Freire, o método  de alfabetização testado em Angicos tinha um objetivo ousado: alfabetizar adultos de forma rápida e barata. E o primeiro passo era o de catalogar as palavras usadas pelo grupo de alunos, pois essas embasariam as aulas. Na próxima terça-feira, dia 2 de abril, a entrega dos diplomas de alfabetização dessa primeira turma completa meio século.

A comemoração da data será bem mais singela que o evento montado no dia da formatura – 2 de abril de 1963. Na solenidade estavam presentes o presidente da República, João Goulart, o governador do RN Aluízio Alves, o secretário estadual de Educação, Calazans Fernandes,  ministros de Estado, governadores do Nordeste, os 12 monitores do projeto – entre os quais o advogado Marcos Guerra –, os 300 alunos e suas famílias.

No grupo das autoridades uma presença chamava a atenção. Fardado, lá estava o general Castelo Branco, que um ano após aquela aula de conclusão de curso assumiu a presidência da República com o golpe militar de 1964. Ele não fez pronunciamento público no encontro, mas disse a Calazans Fernandes que o projeto estava “engordando cascaveis”. Um ano depois, um dos atos de Castelo Branco após sua posse foi o de desarticular o grupo do educador Paulo Freire, que foi preso e exilado. O advogado Marcos Guerra, coordenador do projeto de Angicos, também foi preso e exilado.

Com a prisão dos educadores e a desarticulação do grupo, o projeto foi impedido de ser expandido no Brasil e as primeiras experiências do RN foram extintas.

Nesses últimos 50 anos a experiência de Angicos foi base de alguns estudos acadêmicos, citados milhares de vezes nas cadeiras de Educação nas universidades pelo mundo, tida como referência por, pelo menos, 50 países, mas não houve, até agora, uma releitura ou apropriação do método para a implementação em grande escala como era o objetivo da época. “O projeto é atual, precisa ser revisitado e atualizado. Mas está lá, pronto. Porque Paulo Freire não preparou um método de alfabetização. E sim um método de aprendizagem. De como conhecer. E isso não mudou”, avalia Marcos Guerra.

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Laurita Arruda
Laurita Arruda

Laurita Arruda , jornalista e advogada, com opinião formada sobre (quase tudo), observadora da cena e único compromisso; respeito à verdade! #TLvive #novoTL

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