Domicio Arruda

AutorDomicio Arruda

Médico urologista há mais de 40 anos. Foi Presidente da Unimed Natal, Diretor Geral do Hospital Walfredo Gurgel e Secretário Estadual da Saúde. Atualmente dedica-se ao ofício de avô em tempo quase integral.

O MURRO

O que seria do progresso da ciência sem os congressos, simpósio e seminários para propagação dos avanços e novidades?
E o que seriam dos estabelecimentos de turismo, receptivos (com suas respectivas receptivas) e assemelhados, se os cientistas, saudosos dos lares, não costumassem desopilar a mente depois de cansativos dias de trabalho?
Depois de uma noitada, digamos assim, exaustiva, eis que surge no café da manhã um colega com um chamativo curativo na mão.
Claro que todos perguntaram o que havia acontecido
Era o resultado de uma briga.
Um soco mais violento.
Todos muito curiosos em saber detalhes e desfecho.
Contou que depois de muito vinho e cerveja, havia se levantado para ir ao banheiro, quando se viu frente a frente com um homenzarrão, com pinta de boxer, já dentro do seu quarto de hotel.
Não contou conversa, tascou-lhe um violento murro com todas as suas forças.
O resultado foi uma mão fraturada.
E o prejuízo pela quebra do espelho que refletiu sua imagem.

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MAGISTER DIXIT

Falar difícil, com ares de erudição, pode ser uma necessidade.
Os causídicos que o digam.
É da natureza deles.Faz parte do ofício.
E se versados no latim, então, fama volat.
Mas algumas vezes, isso pode ser uma esperteza.
Lembro de um colega dos bancos do científico que tinha no arsenal linguístico, algumas palavras que eram tiro e queda.
Nenhum professor resistia a um seu peremptório sem dar uma nota alta à redação.
Eu mesmo adquiri com ele, este cacoete e certamente já devo ter causado alguma perempção nas mal traçadas que venho postando neste Território Livre.
Mas ninguém há de superar aquele sertanejo, o mais letrado da fazenda do meu sogro.
Numa das visitas sazonais (e sempre invernais) do patrão-doutor, indagado sobre sua iguaria predileta, respondeu, querendo falar como gente sabida da cidade grande, assim, digamos, peremptório:
⁃A fruita que meu paladar mais apreceia é pomonha de mio verde.

VOCAÇÃO DESVIADA

Festas de final de ano sempre foi a melhor época para quem tendo deixado a terrinha natal, voltar e rever parentes e velhos amigos.
Tempo de mostrar o que se conseguiu na vida da cidade grande.
De vestir as melhores roupas e se tiver tido a sorte de chegar de carro (se novo, o máximo!), flanar pela cidade.
Inveja branca ou não, a melhor oportunidade de se oferecer aos amigos provincianos uma voltinha no possante.
Nos anos 70, ninguém falava ainda em ostentação. As pessoas eram, apenas, amostradas.
Universitário do curso mais prestigiado, havia chegado a vez do meu debut.
E ele foi feito de mãos dadas com a namorada, em desfile na promenade da Rua Grande.
O horário, estrategicamente escolhido, foi a saída da missa, quando as famílias faziam o footing.
E lá vamos nós, acompanhados da indefectível prima-vela.
Moça de fora. Mais uma novidade importada de Campina Grande.
Os olhares convergindo para a gente.
Entre cumprimentos e apresentações (todos querendo saber origem, família e o pedigree da encabulada fiancée), aparece uma daquelas beatas, baratas-de-igreja, ainda com o véu na cabeça.
A devota de Nossa Senhora da Conceição quase acaba com meu aplomb ao revelar o segredo, ainda não confessado à amada:
⁃Pia só. N’era esse minino que ia sê pade?

CONTA EM VENEZA

Programa vespertino très chic. Desses que Bebeto Torres, meu novo vizinho, classifica como bola dentro.
Local: Piazzetta de San Marco, Venezia.
Muita gente circulando.
Grupos de duristas bebendo e comendo pelas calçadas e sob os arcos dos centenários palácios.
Restaurantes com mesas ao ar livre, cobertas por toalhas imaculadas. Muitas, vazias.
E um pianinho que logo começou a tocar bossa nova.
Um clima sonhado para um fim de tarde pra lá de romântico.
Só que o dinheiro dos viajantes era curto e fazia-se necessário saber de antemão os preços dos drinques e petiscos.
Estavam dentro do orçamento.
Encontramos logo outros brasileiros.
Não somos difíceis de achar abroad. Viajamos fardados com camisas da seleção canarinho.
Até o gerente veio confraternizar, lembrando do tempo em que morou nos trópicos, casado com uma maranhense.
Arranhava um portitaliani razoavelmente compreensível.
Tudo saiu à perfeição.
Até a chegada da via dolorosa d’il conto.
O valor somado era mais que o triplo do pesquisado.
Quem senta paga mais, foi a explicação.
A tabela afixada, vogava somente para bipedestação.
Depois do italiano gastar todo seu rico português e meu colega até ameaçar chamar os carabineiros pra resolverem a parada, o nativo desistiu.
Disse que não nos entendia mais.
Foi aí que valeram as aulas do meu amigo no Ginásio de Padre Eymard:
⁃ Io capisco você, por que você non me capisca?

A AVE DOS DESEJOS

Na vereda que leva à fazenda na zona rural de Campina Grande, ao lado da porteira, um senhor de meia-idade (como se existisse alguém de inteira-idade) com um pacotaço embaixo do braço.

Sem cara de vendedor, muito menos de pedinte ou assaltante, foi logo se apresentando: proprietário de um “pedacinho de terra” ao lado, mantem umas criações para amenizar a situação de penúria que a seca já nos estertores, provocou.
E foi direto ao assunto.
Vinha observando que os seus nem de longe podiam ser comparados com os animais da sortuda vizinha.
Daí o pedido inusitado.
Seu objeto de desejo.
Tudo que almejava era uma cruza com o peru da minha sogra.