BOA FORTUNA

B

Nem o Siri que sabe tudo, consegue calcular a distância entre os avós de hoje e os das nossas lembranças infantis.

Seres sisudos, versados apenas em poucas palavras na língua dos pequenos.

Por timidez, costume ou mais o que, homens de conversas curtas. Só falavam quando provocados.

Alguns até interagiam um pouco mais. Há relatos de afagos e até de beijos nos cocurutos.

Os miúdos eram iniciados no ritual de estender a mão (nunca apertada), pedir a bênção, segurar a do interlocutor por segundos e beijar a manzorra.

– Deus te abençoe.

Com variações.

A bendição podia tanto ser delegada ao santo da devoção como acrescida de outros sentimentos.

Apesar do apelido pueril que virou nome,Totô Jacintho mantinha a tradição. E a cautelar separação que os americanos resumem e definem muito bem.

Generation gap.

Com fama de ser muito rico (e era mesmo), podia dar-se ao luxo de algumas excentricidades.

A começar pela resposta ao único cumprimento que os descendentes da segunda geração ousavam oferecer.

Deus te dê boa fortuna.

Desejo a ser entendido como sucesso, destino, riqueza, fartura, bens materiais ou simplesmente, sorte.

E se o filho da filha aparecesse com madeixas de cantor de iê-iê-iê, além da bênção suspensa, a ordem de ir ao barbeiro (corte sem patrocínio) e de voltar para completar o ritual.

Na carência de bancos, financiava empreendedores e abria crédito para quem concordasse em pagar juros de 6%. Ao ano.

Senhor de extensas plantações, fomentava a produção agrícola regional pela intermediação da compra e venda do ouro branco. Entre pequenos, médios produtores, grandes usineiros e trustes estrangeiros.

Andava sempre com uma surrada pasta de couro abarrotada de maços de dinheiro. As notas meticulosamente arrumadas cabeça com cabeça.

Vestia roupas claras e folgadas. Calças de linho S 120, brancas e engomadas. Cordão de outro prendendo o Patek Philippe na algibeira, alpercatas e inacreditável camisa de pijama. Com debrum e tudo.

Os critérios para acesso ao seu crédito eram rígidos.

Sob nenhuma hipótese, emprestava qualquer valor que fosse a quem usasse cabeleira mais longa que à máquina zero, bigodes de pontas caídas e costeletas.

Que procurassem outro agiota aqueles que ousavam trocar os chapéus de massa por bonés e as de mesclita pela abominável moda das camisas de meia, depois rebatizadas de malha.

Comedido nos gastos, de ofício, sabia dar valor ao dinheiro.

Sinais exteriores de riqueza, só os carrões.

Dos Plymouth e Buick aos nacionalizados Sinca Chambord e Galaxie LTD que nunca dirigia, por nunca ter aprendido.

Entrevista ao neto, o jovem repórter, Cassiano Arruda

Mão aberta só quando incorporado do espírito do Natal. Coincidindo com as vendas das safras, o final do ano era o tempo de repartir os lucros. Sempre uma bolada para cada filha e festas para os netos.

Pela inveja dos amigos, uma grana preta. Em valores corrigidos, uns cem dólares.

Abençoada boa fortuna.

Sobre o autor

Domicio Arruda
Domicio Arruda

Médico urologista há mais de 40 anos. Foi Presidente da Unimed Natal, Diretor Geral do Hospital Walfredo Gurgel e Secretário Estadual da Saúde. Atualmente dedica-se ao ofício de avô em tempo quase integral.

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Domicio Arruda Por Domicio Arruda