FUNCIONÁRIA PADRÃO

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Houve um tempo em que os trens da alegria passavam lotadíssimos pela estrada de ferro RN Railways.

E pontualmente. De quatro em quatro anos.

Antes da Constituição de 1988, empregos públicos eram conseguidos pela via democrática do QI.

Os sortudos recebiam uma extensa lista de exames pra fazer e um aviso: indispensável a avaliação médica. Em prazo curtíssimo.

Pra dar tempo da publicação no Diário Oficial antes do período eleitoral.

Estava iniciada a corrida.

Salve-se (ou nomei-se) quem puder.

Na junta médica do estado, apenas três médicos para atender todas as necessidades de perícia.

Ao ponto de entrar gente, literalmente, pela janela da repartição superlolotada.

Tudo pelos três valiosíssimos autógrafos. Que ninguém era doido de negar.

Uma senhora que havia feito tanto esforço para assumir o emprego, em perfeitas condições físicas e mentais (o que rezava o laudo), estava de volta em pouco tempo. Para afastamento do trabalho, dizendo-se com a saúde em frangalhos.

Aprendeu logo as regras do jogo. Já entrou na sala declamando o mantra repetido por onze entre dez frequentadores assíduos do serviço:

A gente morre e o estado fica.

Sobre o autor

Domicio Arruda
Domicio Arruda

Médico urologista há mais de 40 anos. Foi Presidente da Unimed Natal, Diretor Geral do Hospital Walfredo Gurgel e Secretário Estadual da Saúde. Atualmente dedica-se ao ofício de avô em tempo quase integral.

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Domicio Arruda Por Domicio Arruda