JOVEM PARA (NEM) SEMPRE

J

Melhor restauradora da auto-estima não há. A atividade física muda mesmo a vida das pessoas.

Sabe disso muito bem o professor que não tinha tempo pra quase nada.

Na juventude, atleta. Com o passar dos anos, foi trocando de esportes e aumentando os bebes e comes depois das práticas. Acabou fiel somente a um, na modalidade levantamento de murim.

Conhecido como administrador de resultados, por onde passou aumentou a produtividade e reduziu custos.

Transitou por águas e esgotos.

Aconselhou os anciãos da alta câmara.

Planejou a previdência de milhões.

Só não conseguia gerenciar como queria, o sobrepeso.

Depois dos mais estressantes cargos que um scholar pode ocupar na administração pública, na província e na corte, a volta à alma mater, para o coroamento da carreira de educador e formador de engenheiros.

Navegador de longos cursos, o repouso do guerreiro durou pouco.

Logo, resgatado do seu oráculo de Delfos, para mais uma vez emprestar sua expertise gerencial a outras justas causas.

E a aposentadoria foi ficando pra depois.

Como de volta ao primeiro emprego, aplica o que acumulou na vida acadêmica de mestre e doutor, com a mesma competência de sempre e uma única diferença.

Agora com outras prioridades. De quem é regido pelo estatuto do idoso.

Uma vida mansa, livre de problemas financeiros, filhos encaminhados (foram longe), pede um ritmo mais pra valsa.

Sem pressa, tempo é o que não falta para recuperar a antiga forma física. Se possível, sem a barriga refratária.

Redescobriu nas caminhadas madrugadoras, o prazer da atividade física, das conversas jogadas fora, dos novos velhos amigos de infância e a sensação de voltar a sentir-se jovem.

Cavaleiro de rédeas curtas, sem outras intenções, passou a cuidar mais da aparência.

Um corte modernoso no que resta da cabeleira, branca desde os vintenos. A barba rente, sempre cuidada. Roupas de vitrine.

Devoto convertido aos suplementos, vitaminas, comida saudável, tudo que promete estender os tempos que restam e ao que recebe e encaminha nas redes sociais.

Adepto a tudo que possa prevenir doenças, tornou-se obcecado pelo estudos sanitários das arboviroses.

No alvo, a chicungunya. Alguns amigos fora de combate e a proteção pessoal com a decretação de estado de guerra total ao famigerado mosquito.

Repelente nas áreas descobertas e a cuidadosa barreira física das vestes compridas, o tempo todo.

Nas circunavegações do circuito oval da pista de caminhantes e corredores, a impressão que estava causando boa figura junto ao grupo das jovens atletas vindas em sentido contrário.

Elogios à forma física, mesmos os silenciosos e platônicos, são sempre bem-vindos.

A menos que o centro da atenção tenha sido despertado mais pelo invólucro do que conteúdo.

O comentário entreouvido por retardatário foi um sopro fatal no facho ardente do arrojado saradão:

O que a velhice não faz. Aquele vovô deu pra caminhar de pijama.

Sobre o autor

Domicio Arruda
Domicio Arruda

Médico urologista há mais de 40 anos. Foi Presidente da Unimed Natal, Diretor Geral do Hospital Walfredo Gurgel e Secretário Estadual da Saúde. Atualmente dedica-se ao ofício de avô em tempo quase integral.

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Domicio Arruda Por Domicio Arruda