NOBRE TRABALHO NOVO

N

Bem-vindos ao admirável mundo novo.

Com pelo menos 500 anos de antecipação às previsões de Huxley, já estamos vivendo sob suas regras.

E o que era obra de ficção ou motivo de chacota há não muito tempo, é prática corrente.

Na hora de trabalhar, pernas pro ar que ninguém é de ferro, plástico, resina. Nem de cristal.

As maravilhas mecânicas já fazem quase tudo. As eletrônicas, o resto.

Não precisa ser versado em tecnologia do futuro para saber que algumas atividades não terão sobrevida longa.

Na portaria do prédio já não se ouve o bom-dia do Seu Silva.

A simpática porteira remota, com voz aveludada de locutora de aeroporto, faz a leitura facial e com delicadeza, deixa o visitante (cadastrado) entrar.

Quem ainda imagina que um bioquímico utiliza pistilos, almofariz, cadinhos, buretas, pipetas e aquece as substâncias com bico de Bunsen, precisa conhecer as competências dos analisadores.

E não são profissionais com quadradinho no organograma, direitos trabalhistas nem mesmo pessoas de carne e osso.

Máquinas que a cada nova geração vão se tornando mais autônomas, com menos erros, controles, ajustes e calibrações. E interferência humana.

Disponível no mercado, de fabricação tupiniquim, um aparelho portátil, do tamanho de um liquidificador, capaz de ler, em minutos, todas as informações médicas relevantes em um exame biológico (de sangue, fezes, urina ou saliva).

Com precisão, realiza boa parte dos testes laboratoriais sem a necessidade de encaminhar o paciente a um laboratório.

O próprio médico pode ter o aparelho e com apenas uma gotinha de sangue, realizar a leitura dos exames no momento da consulta. Com custos muito mais baixos.

Um plano de saúde fechou suas agências de atendimento presencial em toda a região nordeste. Os mesmos serviços, sem burocracia, filas, humores nem esperas, continuam sendo prestados ao alcance de qualquer smartphone.

De onde?

Quem lá precisa saber disso?

Ao terminar o procedimento cirúrgico o médico no seu laptop, faz sozinho, o trabalho que uma meia dúzia de burocratas costumavam levar dias. Para processar a conta, verificar carimbos, códigos, vistos e glosas. Que depois subia (ou descia) para ser auditada por outro médico. Antes da revisão final.

Ao enviar o arquivo, o doutor sabe quando e quanto (com precisão de centavos) vai receber de honorários.

Uma simples foto tirada em um celular e um aplicativo de origem húngara, é a maneira mais fácil de se pesar um boi, vaca ou bezerro, fora do brete.

O tio com fama de boa vida, em meados do século passado, aproveitava a topografia da propriedade para fazer o que os vizinhos penavam em lombo de cavalo sob o sol inclemente.

Aprendeu a usar a mais moderna tecnologia alemã da época.

Com um par de binóculos Zeiss, contava o rebanho em uma vista d’olhos. No conforto do alpendre, à sombra.

Levou fama de preguiçoso.

Sobre o autor

Domicio Arruda
Domicio Arruda

Médico urologista há mais de 40 anos. Foi Presidente da Unimed Natal, Diretor Geral do Hospital Walfredo Gurgel e Secretário Estadual da Saúde. Atualmente dedica-se ao ofício de avô em tempo quase integral.

Adicionar comentário

Raio-X Marketing Carratu Digital
Domicio Arruda Por Domicio Arruda