O CANTO DOS GALOS

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A megaestrutura, orgulho da pequena cidade no coração do semiárido, é um exemplo da capacidade empreendedora dos seus empresários.

Funcionando há vários anos, proporcionava trabalho, renda e lazer a muita gente.

Ginásio coberto, três arenas, octógonos e vários apartamentos climatizados, cada um com capacidades para acomodar oito atletas.

Tudo isso não funciona mais desde que há um mes a polícia ambiental fechou a maior rinha da região do Trairi.

A Arena de Tangará sediava o mais disputado campeonato do estado, com programação até o final do ano e prometendo premiar os campeões com duas motocicletas zero km e muito dinheiro vivo.

Os superatletas contavam com assistência médico-veterinária, nutricional e fisioterapia. Todo conforto que pudesse ser oferecido a um penoso.

Agora, estão acomodados precariamente, sob uma lona de plástico, em gaiolas exíguas de um presídio improvisado, em região de dunas.

Não se tem ouvido falar em associações de proteção aos animais na defesa de melhores cuidados e ambiência para os galináceos aprisionados.

Nem mesmo o representante dos animais na Assembleia, se manifestou.

O deputado luta com unhas e dentes, para preservar o seu mandato (tem amigo onça de olho gordo) e dedica-se ao projeto de lei para incluir no calendário de eventos, o Outubro Rosa Pet, que entre outros objetivos, visa orientar os bichinhos da madame a fazer o auto-exame.

A única associação voltada aos gallus gallus domesticus, encerrou sua atividades há mais de seis anos.

A ASCUGAL (Associação dos Assopradores de Cu de Galo), sob a regência do saudoso João Maria Monte, já estaria convocando um carnaval fora de época, exigindo das autoridades, tratamento mais animalesco.

Há quem advogue o abate dos prisioneiros e doação para consumo nos abrigos geriátricos. Deve-se levar em conta o custo-benefício. Do gás de cozinha e dos serviços odontológicos. E não venham insinuar o uso da panela de pressão.

Tortura nunca mais!

As informações sobre os apenados não são confiáveis.

Alguns teriam conseguido progressão de regime e cumpririam prisões domiciliares, sob custódia dos treinadores e proprietários-investidores.

O total dos aprisionados é estimado em 27.

Há denúncias (não comprovadas) que este número tem diminuído.

Um grupo de caminhantes madrugadores no entorno do cárcere já contratou os serviços de engenheiro sanitarista, professor-doutor, versado em acústica, para calcular a exata quantidade, pelo espectro sonoro do canto que se ouve de cada pássaro.

Não restarão dúvidas se o plantel galado está sendo progressivamente dizimado.

A solução precisa ser justa e isonômica com outras aves. Araras, papagaios, curiós, galos de campina e outras canoras ou não que quando apreendidas, são tratadas e readaptadas aos seus habitats naturais.

Quem escravizou a espécie deve pagar agora os danos e indenizar os que sofreram tantos anos de opressão e maus-tratos.

O envio dos sobreviventes às florestas de Java e Sumatra é imperativo.

Que os bravos guerreiros voltem e sejam livres no lugar onde tudo começou.

Sobre o autor

Domicio Arruda
Domicio Arruda

Médico urologista há mais de 40 anos. Foi Presidente da Unimed Natal, Diretor Geral do Hospital Walfredo Gurgel e Secretário Estadual da Saúde. Atualmente dedica-se ao ofício de avô em tempo quase integral.

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