TURMA DO GUETO

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Toda grande cidade tem. E onde houver migrantes e dificuldades, o ajuntamento se forma.

Uns acudindo os outros. Na fiança, no período probatório, na ida ao primeiro forró. Vão ficando juntos, acolhendo mais quem chegar e se espalhando.

Em São Paulo, bairros inteiros com jeito de países tão distantes como Japão e Itália.

Liberdade e Brás também viram outros refugiados assimilando culturas d’além mar e do sul maravilhoso.

Aprendem tudo. E rápido.

O machismo, esquecido nas cozinhas das mulheres e nas veredas empoeiradas dos grotões, não impediu quem nunca tinha visto uma bolacha tão grande nem sabia que se come peixe sem fritar, virarem os mais requisitados pizzaiolos e sushimen.

No Rio, ocupam solidária e democraticamente comunidades, cortiços e favelas.

Nova Cruz instalou sua representação diplomática no Jacarezinho. Região agreste da cidade, entre a praia de Ramos e o morro do Alemão.

Pra ser mais preciso, nas cercanias do Buraco do Lacerda.

Entre ex-moradores famosos, o senador de origem potiguar Romário Faria (ramo não oligárquico da família) e o falecido justiceiro Paraibinha, oriundo da região do Curimataú-Bujarí, com passagem meteórica pela crônica policial da Guanabara.

Na conquista dos abundantes empregos, toda experiência somava valiosos pontos. Costureiras e feirantes tinham mais facilidades.

Mesmo aqueles com pouca experiência. Part time workers, nas feiras das segundas, reforçando o time de vendedores das Lojas Paulista e congêneres concorrentes. Uma carta de recomendação do gerente Waldemar Ferreira podia fazer a diferença na carteira de trabalho.

Eliezer, sapateiro dos bons, camarada comunista, líder do grupo dos 11 de Brizola, conseguiu transferir o ideal igualitário mas não as artes do ofício, para todos os filhos. Arim, montou oficina e fez sucesso na capital, enquanto os calçados dos ricos, remediados e chiques eram feitos sob medida, nas formas customizadas.

Mais novo, Araken, foi no rastro de tantos amigos que voltavam a passeio, falando carioca, com camisas volta ao mundo e calças de nycron, fazendo bossa com rádio de pilha. Conseguiu um desconto com Dona Maria de Severino Pau-de-Arara e pegou o ônibus da Planalto em busca de vida menos previsível e modorrenta.

A gravata quadriculada não foi disfarce para esconder a identidade do galego sarará, cortador de tecidos para os turcos da Casa Assuf, na Nossa Senhora de Copacabana.

O conterrâneo, acompanhante da patroa na compra do enxoval para o quarto e sala, fez o reconhecimento e o teste. Perguntou pela origem do vendedor. Alemão, croata ou gaúcho?

Com sotaque do Irajá, disse ser do norte.

Na frente do gerente, ficou ainda mais amarelo quando o amigo de infância, disse tê-lo achado a cara de um cara da sua terra que tinha arribado depois de ter pintado e bordado. E fugido da polícia.

O encontro e a brincadeira acabaram em reminiscências e olhos marejados de saudade.

Sobre o autor

Domicio Arruda
Domicio Arruda

Médico urologista há mais de 40 anos. Foi Presidente da Unimed Natal, Diretor Geral do Hospital Walfredo Gurgel e Secretário Estadual da Saúde. Atualmente dedica-se ao ofício de avô em tempo quase integral.

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